CABELOS DO PÓ

pintura bruno de maio 2

Desenho/Bruno Di Maio

Eu não posso emoldurar os cabelos do pó
não posso emoldurar a lágrima
nem o tempo das tuas mãos
mas teço as sombras sob teu corpo
das contas das gotas dos meus olhos
qual sagrada procissão
que me revela
além da moldura
a cegueira da minha visão
enquanto os beirais exalam
o teu incenso amado meu!

UM PÉ DE POEMA/NO JARDIM DE SOFIA/(zocha)

Vou plantar um pé de poema
já esterquei a cova
fiz desova com minha pena
já arregacei os baldes da manga
fiz descarrego das veias
assim planto esse pé de poema no canteiro do agora
crivo nos cravos dos olhos teus
Bordarei sem palavras esses teus umbigos
adejarei borboletas
além da barriga desta aldeia
Já reguei das bilhas
borrifei as calhas com água benta
nas asas do verso o ácido da placenta
a terra bebe o córrego
fio d’água escorre tua eternidade!

ESPUMA E SOMBRA

…em única morada nos ouvimos e nos habitamos…

De onde vens palavra minha?!
Para onde vais?!…
Espuma e sombra sob os véus
reluzes e sombreias a minha prancha
doce é o enlevo do teu beijo
e formosa a composição de tuas formas
De incenso é a tintura de teus sons
mas a sombra não descalça os teus pés
nem o plasma de tua boca
nem este enredo da asa de teu verso
Mas meiada de teu rochedo
em meu sonho
e plasma aceso em mim neste vaso
me alcovas com tua luz e me exparges…
Ainda ontem te colhi flor
do meu sal!

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DE CASA DE GAZA


É possível não compreender
a sucessão de agoras
que explodem
e fragmentam corpos
sonhos memórias
continuam caindo da mesa
migalhas de pão
dardos
desumana história
da não compreensão
dos ensaios do tubo
do olhar lacaio
de soslaio
da explosão
dos gases de dentro
de casa de Gaza

GRANDE SENHOR DO DISCO SOLAR

GRANDE SENHOR DO DISCO SOLAR

FELIZ NATAL! FELIZ NAVIDAD y PRÓSPERO AÑO NUEVO!

BOAS FESTAS!

Tua aurora não tem começo nem fim
“Aton, Tu és brilhante, claro e forte!
…Salve ó Tu que Te ergues no horizonte
e que iluminas o céu…
Teu amor é grande e poderoso
Salve ó deus maravilhoso da paz
vê como os homens erguem as
mãos suplicantes
eles oram enquanto acordas ao
surgires do teu leito noturno”(*)
Me extasio!
Saúdo-te oh pura essência
Alpha Ômega
Aton Rá Zoroastro
Buda Shiva Brahma
Maomé Cristo
Tu simplesmente habitas
Tu és única morada em todos os reinos
na acústica dos meus sentidos
ar fogo água terra
te respiro na argila deste vaso
em que me queimas
na tua chuva que me germina
no teu fogo que me incendeia e depura
sopras-me em espuma e sombra
e a aurora e o crepúsculo dizem da tua beleza
Assim te peço
que em todo amanhecer
quando lótus
abre suas pálpebras
e Tu ressurges resplandescente
sobre a Esfinge
que ao emprestares a luz de teus olhos a ela
o sopro e a voz da Palavra para criar
e reconhecer as formas do mundo e a sua Arte
possam esses olhos coração e razão
extasiados em Ti
celebrar
o quão Belíssimo és Tu
na manjedoura do horizonte
quando nasces todas as manhãs
“radioso Aton fonte de todas as coisas vivas
…teus raios tocam o chão
as solas dos teus pés
se movem sobre o pó..” (*)

(*) citações/primeiro hino ao Senhor
do Disco Solar

HERU – RA – HA (Hórus e Rá sejam louvados!!!)

YOGALA OU O LIVRO DE YOGA POÉTICO COM O POETA YOUSSEF RZOUGA

YOGALA OU O LIVRO DE YOGA POÉTICO

YOUSSEF RZOUGA

YOGALA é uma outra asa de um voo poético Yoga conforme emerge do espírito do terceiro milênio, é uma forma concisa, concentrada e livre de expressão poética como a própria atualidade exige. Cada yogama é como um poema/exercício de absorção poética cujo tema abrangente pode ser objeto dos mais variados fenômenos e sensações psíquicas,afetivas.

OUTRO VOO OUTRA ASA YOGA UM CÉU AZUL

YOGAMA 1

Só de voar sozinha
te deprimes
eu que te sou
te exijo
uma provável yogala
isto é
uma experimentação
só outro vôo
outra asa Yoga
e um céu azul

YOGAMA 2
Só de olhar pela janela
te deprimes
eu que te sou
vejo o universo todo
para não ver nada
para não ver ninguém

YOGAMA 3

só de pensar no futuro
te deprimes
eu que te sou
bebo o suco da laranja
para esquecer o sabor do Saara

YOGAMA 4
Só por viveres em lugar desagradável
ficas deprimida
eu que te estou
sonho em viajar
pelo mundo inteiro

YOGAMA 5

de ouvir ruídos
te deprimes
eu que te sou
estou dentro de ti
não ouço nada

YOGAMA 6

Para alimentar a alma
basta um pequeno naco
de silencio

YOGAMA 7

Faça-me mimos
enquanto acabo
de transportar a montanha

YOGAMA 8
Este show
me deixa nervoso
me oculto
no fundo de teus olhos

YOGAMA 9
Enquanto uma criança sorri
este público histérico
polui os pulmões do rio


YOGAMA 10

Um amor
um milagre
e o universo todo
floresce

YOGAMA 11
Meu pai
me esbofeteou
minha sorriu-me
fiquei fora do ar
completamente embriagado
de seu beijo saboroso e quente

YOGAMA 12
Esta criança
já derrubou dois dentinhos
agora
pode morder ternamente
os seios de sua mãe
os dedos de seu pai
e até rolar a esfera do mundo
banhada em chocolate

YOGAMA 13
Distrai-me ouvir
o silencio

YOGAMA 14
O silencio
cujo teto é azul celeste
é a cidade sagrada
do coração

YOGAMA 15
Fala mais baixo
não te ouço

YOGAMA 16
Estás certa
de que sou eu?
Tens o código
para entrar em minha casa?


YOGAMA 17
Não entendo nada
tudo é muito claro


YOGAMA 18
Longe
é exatamente o amor
que estou procurando

YOGAMA 19
Não posso deixar
este olhar cheio de luz

YOGAMA 20
Os polvos soltam um jato
de tinta
para defender-se
eu preciso
de uma infusão de tílias
para relaxar-me

YOGAMA 21
Eu uso muito os teus olhos
obrigado

YOGAMA 22
Este coração azul
se abre em mares

YOGAMA 23
Acalma-te
esta asa terna e imensa
nos protege do vento

YOGAMA 24
Shiii!
vai
despertar
a cama
a almofada
o colchão

YOGAMA 25
Um se reflete
no espelho do outro
e ainda assim a alma fica livre
para te refletir

YOGAMA 26
Depois de percorrer
a metade do caminho
preciso muito de descanso
Não te apóies assim
contra meu coração
Cuidado está frágil!

YOGALA: COMO ADOTAR A POSTURA DA LUZ

YOGAMA 27
Este coração
sempre pleno de luz
se abre aos seis continentes
por favor entra
a luz é insuportável
sem ti

YOGAMA 28
O limão
tem um ácido sabor
um aroma muito especial
tem a nossa amizade

YOGAMA 29
Que linda estás!
Vais à festa?
Ficarei sozinho
contigo

YOGAMA 30
Este ruído
vem da casa ao lado
qual o caminho da tua
?

YOGAMA 31
Este olhar
que parece-me tão triste
emite tanto brilho

Excertos/1a.parte/YOGALA
tradução/espanhol/lilian reinhardt

RENASCENTE

RENASCENTE

(líricas de um evangelho insano)

Renasço sempre renasço
verbo da terra
sou fungo das
minhas povoações
o mundo me arrasta
o caudal
minhas vestes me guardam
a extensão
a debulha me acrescenta
me subtrai me rasga os grãos
mas as sombras que me revoam
que me projetam
me dizem
da tua eternidade
as sombras me dizem
da tua luz marinha
do teu silêncio das tuas
constelações pelos caminhos
das longitudes
e das latitudes da árvore
e de seus ossos
renascentes

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VETADO

VETADO

(líricas de um evangelho
insano)

A palavra pode ser
extremamente bárbara
Se é contumaz lírica
no trampolim faz
acrobacias
deflagra reticências
pelos céus…………
………………….
Salta de para-quedas
das estrelas************
e se abana a respiração
cansada do rei
é sempre em legítima
defesa de honra
Palavra amamentada
VETADO
Sempre certa é incerta
Ápeiron de Anaximandro
se diz substância imutável
da língua das coisas
mas confunde o remo
com o remoinho
não quero formulários
só tenho um par de sapatos
voadores
e um ticket de volta
indeterminado
a escada se recolhe e revoa
o pássaro faz a rota
do comboio mas o comboio
não faz a rota do pássaro
Há uma litorina sobre o mar
sobre os cabos de aço
de teus braços
O teu axioma algures minha
substância………….
…………………..*****************
***************************
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SALGANTE

salgante
(líricas de um evangelho insano)

Pode ser qualquer texto,
talvez este, o mais exposto,
o menos guardado, este amarrotado,
sem sentinela na torre, bolinha de papel
quase afundado na lixeira de costume,
nada de códigos,
tudo se remumifica
sob o verbo selado,
um cheiro ocre de cebolas
e continentes,
um bálsamo de cedro, uma
coifa guardando a fumaça,
tudo a céu aberto, no rendilhado.
Tudo pode ser um grito perdido,
um grito ouvido, um verbo salgado
sob 0 galho de uma árvore,
o peso e a leveza
do estalido no copo, no corpo,
do gemido fervido
da chaleira anunciando,
o toque da campainha,
o cincerro da ovelha,
o opúsculo dos cães,
a pastoral do amanhecer.
Qualquer texto escreve-se
sem iniciais em pré-texto,
sem recontagens de tempo,
desde que me ouças!


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AQUELE VASO

Em cima da mesa da sala de jantar

de madeira de pinho envernizada

aquele vaso

cheirava a casa inteira

misturava-se com meu sonho

e rescendia minhas vírgulas

,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

cheirava o bife à milanesa

de massa de ovo caipira na cozinha

Olho a janela do avião agora

e as nuvens ao longe

alcançam meus olhos

eu perdi o cheiro das horas

o crepúsculo é um trago mal

cheiroso de embriaguez dos sonhos

o sudário cheira um tempo vazado

de lençóis costurados

e o frio da manhã congela os ninhos

nas conchas das araucárias

A gente no mundo cheira fumaça

no beco mal cheiroso a mulher

cheira o tempo debruçada na janela

porque Matisse se oculta naquele vaso

na mesa da sala de jantar

e virá ainda hoje pintar o sol…

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